Alta tecnologia coleta dados pioneiros sobre a regeneração da floresta em área de agricultor familiar

Em Capitão Poço, no Pará, torre de Uma torre de 20 metros de altura instalada no nordeste do Pará marca o início do primeiro monitoramento climático em florestas secundárias (capoeiras) da Amazónia. O estudo inédito acompanha o processo de regeneração natural em uma área de 56 hectares em Capitão Poço e mobiliza uma rede de instituições científicas, integrantes do Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazónia (Centro Capoeira), coordenado pela Embrapa.

O trabalho vai gerar dados sobre como as florestas em crescimento auxiliam na mitigação dos impactos climáticos globais e é conduzido na propriedade de Manuel Geraldo de Carvalho, o seu Duquinha. O agricultor de 93 anos é o responsável pela recuperação e proteção dessa área há três décadas. Os sensores de solo e atmosfera vão fornecer dados contínuos para avaliar como as capoeiras — áreas que brotam espontaneamente após desmatamentos ou uso agrícola — atuam como o sistema de cicatrização natural do bioma.

O legado de “Seu Duquinha”: a base do laboratório vivo

Para compreender a origem desse território científico, é necessário resgatar a história do guardião da área onde a torre de 20 metros está instalada: seu Duquinha. Sua ligação com a região começou muito antes de o município de Capitão Poço ser emancipado. Ainda na infância, deixou a vizinha Ourém para acompanhar o pai e os tios em uma jornada de caça na comunidade de Nova Colônia. Ao decidirem se mudar definitivamente para a mata, os pioneiros lotearam os terrenos e instalaram suas famílias no local.

Antes de se tornar uma referência em conservação, seu Duquinha foi alfabetizado por uma escola radiofônica, concluiu o ensino médio e trabalhou como escrivão de polícia. O plano de transformar a antiga área de roçado em um refúgio verde ganhou um propósito definitivo há pouco mais de três décadas, por incentivo de um dos seus 12 filhos, que o estimulou a direcionar a sabedoria prática da terra para a conservação. Com o plantio manual de cerca de 30 mil mudas de espécies nativas e frutíferas — como castanheiras, jatobás, piquiás e bacurizeiros —, o agricultor restaurou uma antiga nascente que secava regularmente. “A mata ciliar estava muito degradada, então fomos fazendo a restauração. Hoje já está com um bom tempo que o riachinho não seca”, recorda.

Ao seu lado, a esposa Luiza Bezerra, companheira há 66 anos, orgulha-se do oásis familiar criado contra a corrente do desmatamento regional: “Me sinto feliz demais, porque hoje em dia para se achar um lugar como esse é raro”. A regeneração trouxe de volta a fauna local, como cutias, veados e bandos de macacos-bugio (guaribas), animais cuja forte vocalização funciona como bioindicador de que a floresta está saudável.

Da vivência prática à ecologia científica

O exemplo do casal moldou o destino da neta, a bióloga Laína Carvalho, de 33 anos. Criada como filha pelos avós, ela cresceu na propriedade (Reserva Ecológica São Geraldo Magela) e transformou as árvores da sua infância em objeto de estudo. Atualmente doutoranda em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia, Laína dedica-se a decifrar a matemática da regeneração através da ecologia.

Sua pesquisa busca quantificar a capacidade da floresta de produzir e armazenar sua própria energia nas capoeiras durante extremos climáticos, como secas severas ou chuvas concentradas. “A planta recebe energia pela fotossíntese. Parte dela usa para crescer e se recuperar, e a energia que sobra é distribuída para o tronco, folhas e raízes. Meu trabalho é entender como essa distribuição acontece ao longo dos anos. Analiso desde capoeiras jovens até mais antigas, de 15 até 60 anos, incluindo a floresta primária intacta, onde o Centro Capoeira instalou, recentemente, outra torre de monitoramento”, explica a pesquisadora.

Para medir essa engrenagem viva, a cientista não olha apenas para o topo da torre, mas para o que cai no chão. A metodologia envolve coletar e analisar a “serrapilheira”, uma camada de folhas, galhos e frutos que cobre o solo, além de calcular até mesmo a perda de energia provocada por insetos que se alimentam das folhas (a herbivoria).

Duas torres, duas florestas

Os dados gerados pela estrutura na área do seu Duquinha têm como aliada outra torre de monitoramento. Com 40 metros de altura, o outro equipamento foi instalado em um fragmento de 500 hectares de floresta primária intacta que pertence a um sítio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca (Sedap) em Capitão Poço.

Enquanto a estrutura de 20 metros monitora a capoeira, a de 40 metros monitora a floresta nativa intocada, servindo como base de comparação científica. Os dois pontos receberão sensores microclimáticos em diferentes alturas para medir, em tempo real, variáveis como a umidade e a temperatura da superfície, do ar e do solo.

A torre de 40 metros que hoje se sobrepõe à copa das árvores nasceu de um projeto coordenado pelo pesquisador Fernando Elias da Silva, do Museu Paraense Emílio Goeldi, em colaboração com o pesquisador e professor Divino Silvério, da Universidade Federal Rural da Amazônia. O trabalho, financiado com recursos do Instituto Serrapilheira, foi inicialmente desenhado de forma independente e ganhou escala ao ser integrado ao grande guarda-chuva que hoje é o Centro Capoeira.

De acordo com Fernando, o projeto defende a compreensão das florestas secundárias – aquelas áreas que, após sofrerem desmatamento para dar lugar a pastagens ou à agricultura, acabaram abandonadas e iniciaram um processo de regeneração natural. O pesquisador explica que essas capoeiras prestam um serviço ambiental inestimável para o planeta, atuando diretamente na recuperação da biodiversidade local e oferecendo serviços ecossistêmicos cruciais.

Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

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